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Carbono Oculto: empresário ligado a indústria em Dourados é denunciado

César Cirne Leal está entre os 16 denunciados pelo Ministério Público de São Paulo por suspeita de envolvimento em esquema de desvio de metanol para adulteração de combustíveis.

26/08/2026 às 17h40
Por: Leandro Colman
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Carbono Oculto: empresário ligado a indústria em Dourados é denunciado

O empresário César Cirne Leal, que mantém atividades empresariais em Mato Grosso do Sul, está entre as 16 pessoas denunciadas pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) por suspeita de participação em uma organização criminosa envolvida no desvio de metanol para adulteração de combustíveis comercializados na Grande São Paulo.

A denúncia foi apresentada nesta quarta-feira (26) e é resultado das investigações da Operação Carbono Oculto, que apura a atuação do crime organizado na cadeia de combustíveis.

Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), o esquema teria funcionado de forma contínua entre 2017 e 2025. As investigações também apontam o uso de empresas e instituições financeiras para movimentar e ocultar recursos obtidos por meio das fraudes.

Embora esteja radicado em São Paulo, César Cirne Leal mantém vínculos empresariais com Mato Grosso do Sul. Ele aparece como sócio-administrador da Oreonn Indústria e Comércio de Óleos Vegetais e Químicas Ltda., empresa que possui uma unidade instalada no Distrito Industrial de Dourados.

A filial foi aberta em agosto de 2022 e está registrada na Avenida 2, tendo como atividade principal a fabricação de óleos vegetais em bruto. A sede da empresa fica em Barueri, na região metropolitana de São Paulo, e também tem Cirne como administrador.

O empresário assumiu o comando societário da Oreonn em novembro de 2015. A companhia também utiliza ou já utilizou o nome fantasia Biocar Química e possui registros relacionados à antiga Biocar Indústria e Comércio de Óleos Vegetais e Biodiesel Ltda., responsável pela instalação de uma usina de biodiesel em Dourados.

Histórico da empresa em Dourados

A Biocar foi inaugurada em 2008 e se tornou a primeira usina de biodiesel de Mato Grosso do Sul. O empreendimento encerrou as atividades em 2019.

Na época da instalação, o projeto previa investimentos superiores a R$ 2 milhões, com parte dos recursos financiada pelo Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO). A unidade tinha como objetivo produzir biodiesel e óleo vegetal.

A empresa chegou a integrar a relação de produtores de biodiesel autorizados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Posteriormente, perdeu o registro de produtora e passou a aparecer em processos judiciais relacionados a cobranças, execuções e dívidas com credores.

César Cirne Leal também aparece em processos que tramitaram na Justiça de Mato Grosso do Sul. Em uma ação envolvendo cobrança de aluguéis, ele consta como representante legal da Biocar. Em outro processo, na comarca de Dourados, o empresário foi incluído juntamente com a Oreonn em um cumprimento de sentença.

Como funcionava o esquema investigado

As investigações tiveram início em maio de 2023, quando a Polícia Rodoviária Federal interceptou um caminhão transportando metanol puro. A principal suspeita era de que a carga seria utilizada para adulterar gasolina.

Com o avanço da apuração e a análise de celulares apreendidos durante a Operação Boyle, os investigadores identificaram uma estrutura que teria sido criada para adquirir grandes quantidades de metanol diretamente de importadoras e terminais marítimos.

Segundo a acusação, para ocultar o destino das cargas, integrantes do grupo utilizavam documentos e notas fiscais falsas. Os registros indicavam que o metanol seria destinado a indústrias químicas para a produção de biodiesel ou solventes.

Na prática, conforme apontado pela investigação, o produto teria sido levado diretamente para tanques de postos de combustíveis.

Em junho de 2025, investigadores acompanharam um caminhão que teria deixado a rota declarada e descarregado metanol em quatro postos da capital paulista. Fiscalizações realizadas posteriormente identificaram gasolina adulterada nos estabelecimentos.

A regulamentação da ANP estabelece limite de 0,5% de metanol na gasolina. Em alguns dos postos investigados, porém, a concentração encontrada teria chegado a 50%.

A Polícia Federal estima que mais de 10 milhões de litros de metanol tenham sido desviados. Segundo as investigações, distribuidoras também teriam participado da ocultação das cargas utilizando notas fiscais que simulavam o transporte de gasolina ou etanol.

Recursos passavam pelo mercado financeiro

De acordo com o Ministério Público de São Paulo, os recursos obtidos com a adulteração dos combustíveis eram movimentados por meio da BK Instituição de Pagamento e de fundos de investimento em direitos creditórios.

A frente financeira da investigação levou a Operação Carbono Oculto até empresas e instituições localizadas na região da Avenida Brigadeiro Faria Lima, principal centro financeiro de São Paulo.

As primeiras ações da operação ocorreram em agosto de 2025 e atingiram mais de 350 pessoas físicas e jurídicas.

Os 16 denunciados são acusados, de acordo com a participação atribuída individualmente a cada um, de crimes que incluem organização criminosa, lavagem de dinheiro, fraude contra consumidores, estelionato, crimes ambientais e infrações relacionadas às ordens econômica e tributária.

Entre os denunciados está Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, apontado pelos investigadores como um dos principais financiadores e beneficiários do esquema. Ele está foragido.

A defesa de Beto Louco afirmou ao jornal O Globo que ainda não teve acesso aos autos e negou qualquer envolvimento do empresário nos fatos investigados. Os advogados também alegaram que a inclusão do nome dele no processo teria como objetivo gerar repercussão na imprensa.

Na denúncia, uma possível ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) é mencionada diretamente apenas em relação a Admar de Carvalho Martins, conhecido como Dema. Ele também é investigado em outro processo relacionado à empresa de ônibus UPBus e a pessoas apontadas como integrantes da facção.

A denúncia apresentada pelo Ministério Público agora será analisada pela Justiça, enquanto as investigações continuam para esclarecer a extensão do esquema, identificar outros possíveis envolvidos e verificar a existência de novas ramificações da organização.

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