
Quem pergunta a um campo-grandense onde fica determinado endereço pode receber uma resposta bem diferente da divisão oficial da cidade. Em vez de ouvir nomes como Prosa ou Anhanduizinho, é comum surgirem referências como “saída para Cuiabá”, “saída para São Paulo”, “saída para Três Lagoas” ou “saída para Rochedo”.
A maneira de localizar lugares pela direção das rodovias não é apenas um hábito criado recentemente. A tradição está relacionada à própria formação de Campo Grande, quando os caminhos utilizados por boiadeiros, pecuaristas e viajantes eram fundamentais para conectar o então povoado a outras regiões.
Hoje, a cidade é oficialmente dividida em sete regiões urbanas: Centro, Prosa, Segredo, Bandeira, Imbirussu, Lagoa e Anhanduizinho. Essa organização territorial considera estudos de planejamento urbano que utilizam, entre outros critérios, as bacias hidrográficas formadas pelos córregos da Capital.
No cotidiano, porém, a população criou sua própria maneira de se orientar. E, nessa disputa entre mapas oficiais e memória popular, as antigas rotas continuam presentes.
A relação de Campo Grande com as rodovias começou muito antes da existência dos bairros atuais.
Estudos sobre a formação urbana da Capital mostram que o antigo povoado mantinha ligação com diferentes regiões de Mato Grosso e do país por meio de estradas boiadeiras. Essas rotas chegavam ao núcleo urbano por diferentes direções e eram utilizadas tanto pelo transporte de gado quanto pela circulação de pessoas e mercadorias.
Uma das principais vias seguia em direção ao Pantanal. As estradas também chegaram a ser utilizadas como referências para delimitar os limites da antiga vila.
As rotas para São Paulo e Minas Gerais, por exemplo, tinham grande importância para o comércio e para a movimentação dos primeiros moradores.
Na época, não existiam GPS, aplicativos de mapas ou bairros planejados. Saber para qual região uma estrada seguia era uma das maneiras mais práticas de explicar onde determinado lugar estava.
Essa lógica permaneceu mesmo depois que Campo Grande começou a crescer e a incorporar as antigas áreas rurais à malha urbana.
O desenvolvimento urbano transformou antigas estradas em avenidas e corredores de circulação.
Um exemplo é o atual bairro Amambaí, considerado o primeiro bairro planejado de Campo Grande, implantado em 1921. Seu traçado foi influenciado pela existência das antigas estradas boiadeiras que levavam em direção a Aquidauana e ao Imbirussu.
A região onde posteriormente seriam instaladas estruturas militares também estava próxima da estrada que ligava Campo Grande a Corumbá e Aquidauana, uma rota bastante utilizada por pecuaristas.
Outro exemplo está na atual Avenida Tamandaré, que aparece nos registros históricos da expansão da cidade associada à antiga saída para Rochedinho.
Com o passar dos anos, a cidade cresceu ao redor desses caminhos. O que antes era uma estrada para sair da vila acabou se transformando em uma avenida dentro da própria cidade.
O primeiro grande planejamento urbano de Campo Grande foi elaborado em 1909, por Nilo Javary Barém. A proposta apresentava uma estrutura ortogonal, com uma grande avenida central e ruas organizadas, estabelecendo uma direção para o crescimento da então vila.
Nas décadas seguintes, outros planos passaram a considerar grandes avenidas, corredores urbanos e ligações entre diferentes regiões.
Projetos como o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado e estudos posteriores voltados ao planejamento da Capital reforçaram a importância das vias de circulação.
Uma dessas estratégias foi a criação do chamado minianel, pensado para conectar diferentes acessos sem que os veículos precisassem atravessar o centro da cidade.
Na década de 1980, essa lógica avançou com a implantação do anel viário, que passou a conectar importantes acessos, como as saídas para São Paulo, Três Lagoas e Cuiabá.
A expansão das rodovias também atraiu empresas atacadistas, estabelecimentos comerciais e serviços ligados principalmente ao agronegócio.
A expansão urbana também levou milhares de pessoas para regiões cada vez mais distantes do centro.
Um dos exemplos mais marcantes é o das Moreninhas. O conjunto habitacional foi implantado na década de 1980 com aproximadamente 4 mil casas populares.
Naquele período, a região ainda era cercada por áreas rurais, fazendas e chácaras. Para chegar até o conjunto, era necessário percorrer caminhos que, na época, estavam muito mais próximos da realidade de uma saída da cidade do que de uma avenida urbana.
A Avenida Gury Marques, principal ligação com aquela região, ficou conhecida justamente pela referência à saída para São Paulo.
O professor de história Victor Hugo lembra que, décadas atrás, determinados pontos que hoje estão completamente integrados a Campo Grande pareciam estar fora da cidade.
Segundo ele, chegar às Moreninhas significava praticamente pegar a rodovia e deixar a área urbanizada.
Outras regiões, como Nova Lima, a área do Hospital São Julião e posteriormente o Jardim Los Angeles, também cresceram distantes do núcleo central.
Essa expansão ajudou a consolidar a ideia de que determinadas áreas eram identificadas não apenas pelo nome do bairro, mas pela estrada ou avenida que levava até elas.
O processo de expansão deixou outra característica marcante na Capital: a ocupação extensa do território.
Estudos de planejamento urbano já apontavam Campo Grande como uma cidade com ocupação predominantemente horizontal, grandes distâncias entre regiões urbanizadas e muitos espaços vazios.
No final da década de 1980, propostas de planejamento tentavam justamente reduzir esse espalhamento.
A estratégia previa estimular o adensamento da região central, incentivar a ocupação de uma segunda faixa localizada a até oito quilômetros do centro e evitar a expansão de novos conjuntos habitacionais em áreas ainda mais distantes.
A preocupação era evitar que a cidade continuasse crescendo de maneira excessivamente espalhada.
Mesmo assim, a expansão continuou e incorporou antigas áreas rurais à cidade.
Apesar da divisão oficial em sete regiões, a forma como os moradores se orientam no dia a dia é muito mais diversa.
Para a balconista de farmácia Walkiria Aimee, de 46 anos, os bairros aparecem com frequência nas informações dadas pelos clientes, principalmente quando é necessário localizar endereços para entregas.
Mas nem sempre o nome informado corresponde exatamente à divisão oficial.
Um morador pode dizer que vive no Nova Lima, no Anache ou no Vida Nova, enquanto outra pessoa prefere indicar a região de acordo com um ponto conhecido, como o Parque dos Poderes.
Grandes avenidas, shoppings, supermercados, condomínios e outros estabelecimentos também se transformaram em referências importantes.
Em áreas mais afastadas, muitas pessoas preferem dizer que moram “na região do Nova Lima” ou “perto do Parque dos Poderes”, em vez de mencionar o nome específico de uma localidade menos conhecida.
A maneira de indicar onde mora também pode estar ligada à percepção que a pessoa tem sobre determinada região.
Segundo Walkiria, alguns moradores evitam mencionar diretamente o nome de bairros associados à periferia ou a problemas de infraestrutura e segurança.
Em vez disso, preferem utilizar referências consideradas mais valorizadas, como grandes lojas, condomínios ou centros comerciais.
É comum, por exemplo, alguém dizer que mora “em frente à Leroy Merlin” ou “perto do Alphaville”, mesmo quando o endereço oficial pertence a outra região.
Para ela, essa forma de identificação também muda conforme o bairro recebe novos serviços, comércio e infraestrutura.
Quanto mais uma região se desenvolve e passa a ter referências próprias, maior tende a ser a identificação do morador com aquele espaço.
No fim, Campo Grande possui dois mapas que convivem diariamente: o mapa oficial, utilizado pelo planejamento urbano, e o mapa afetivo construído pelos próprios moradores.
É nesse segundo mapa que antigas saídas, rodovias, córregos, avenidas, bairros e pontos conhecidos se misturam para formar uma maneira particular de entender a cidade.
Aos 127 anos, Campo Grande continua crescendo, mas parte de sua história permanece marcada pelos mesmos caminhos que um dia levavam para fora da cidade e que hoje ajudam os moradores a encontrar o caminho dentro dela.
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