
Companheira de José Antônio Pereira na jornada que trouxe a família para o sul de Mato Grosso, a matriarca ainda aparece pouco nos registros que contam a origem da Capital.
A história da formação de Campo Grande costuma destacar nomes masculinos, principalmente o de José Antônio Pereira, reconhecido tradicionalmente como fundador da cidade. Nesse relato, porém, uma personagem que também participou da trajetória inicial do município acabou ficando em segundo plano: Maria Carolina de Oliveira, esposa de José Antônio e integrante da comitiva que deixou Minas Gerais rumo ao sul do então Mato Grosso.
A participação de Maria Carolina na jornada de 1875 é conhecida, mas muitos detalhes sobre sua vida permanecem desconhecidos. Não há informações precisas sobre sua idade na época da viagem, por exemplo.
O historiador Carlos Alexandre de Barros Trubiliano, pesquisador da história regional, considera que a trajetória de Maria Carolina merece maior atenção.
Segundo ele, os registros históricos tradicionalmente se concentram em José Antônio Pereira, mas documentos e relatos indicam que Maria Carolina participou diretamente do processo que levou a família a se estabelecer na região que posteriormente se transformaria em Campo Grande.
José Antônio já havia passado pela região anteriormente. O núcleo inicial da cidade havia sido estabelecido em 21 de junho de 1872. Três anos depois, em 1875, ele retornou acompanhado da família e de outras pessoas que integravam a grande comitiva vinda de Minas Gerais.
Maria Carolina e José Antônio eram mineiros e se casaram em São João del-Rei (MG). Depois, viveram em São Francisco das Chagas do Monte Alegre, atual Monte Alegre de Minas, onde formaram a família.
A distância entre Monte Alegre de Minas e Campo Grande ultrapassa 890 quilômetros. A viagem até o sul de Mato Grosso foi longa e realizada em uma grande comitiva, com utilização de carros de bois.
A chegada ocorreu em 14 de agosto de 1875, segundo registros históricos. Para o pesquisador, a viagem demonstra que a formação do núcleo que daria origem à cidade foi resultado de uma experiência familiar e coletiva, e não apenas da iniciativa individual de José Antônio.
Apesar da importância de Maria Carolina para a história da família pioneira, informações sobre sua vida são escassas.
De acordo com Carlos Alexandre, documentos paroquiais e cartoriais de São João del-Rei e Monte Alegre de Minas podem ajudar a esclarecer aspectos ainda desconhecidos de sua trajetória, como origem, filiação, idade, casamento e morte.
“Isso constitui uma possibilidade de pesquisa”, explica o historiador.
Já em terras sul-mato-grossenses, Maria Carolina e José Antônio tiveram oito filhos. A história da família permanece presente em um dos locais ligados aos primeiros anos da cidade, na região da antiga Fazenda Bálsamo, atualmente na Avenida Guaicurus.
O espaço foi doado à Prefeitura em 1966 e restaurado em 1999 para receber visitantes. A antiga casa de pau a pique, o engenho e o monjolo preservam parte da memória da vida rural de Campo Grande no passado.
No local, esculturas representam Antônio Luiz Pereira, filho dos pioneiros, sua esposa Ana Luiza e a filha Carlinda.
A semelhança física entre Antônio Luiz e o pai acabou contribuindo para que sua imagem fosse utilizada em representações de José Antônio Pereira espalhadas pela cidade.
Se os registros sobre a vida de Maria Carolina são escassos, a situação também se repete em sua última morada.
Os restos mortais dela estão no túmulo da família, no Cemitério Santo Antônio, em Campo Grande. O local fica logo na entrada do cemitério e chama atenção pelo formato de obelisco, semelhante ao monumento dedicado a José Antônio na Avenida Afonso Pena.
No entanto, enquanto o fundador é lembrado por fotografia, datas de nascimento e morte e outras informações, praticamente não há identificação de Maria Carolina na sepultura.
O bisneto Edson Contar, de 86 anos, conta que Maria Carolina nasceu em São João del-Rei, onde conheceu José Antônio, natural de Barbacena.
O casal teve oito filhos. Entre eles estava Antônio Luiz Pereira, que acompanhou o pai na formação do núcleo que daria origem à cidade.
Segundo Contar, Maria Carolina morreu por volta de 1895.
O túmulo também guarda os restos de José Antônio, que nasceu em 19 de março de 1825 e morreu em 11 de janeiro de 1900.
A sepultura já foi alvo de furtos. Em 2022, uma fotografia que fazia parte do túmulo foi levada. Placas de identificação também foram furtadas ao longo dos anos.
Para evitar novas perdas, a administração do Cemitério Santo Antônio substituiu uma das placas por uma peça de aço inoxidável, material com menor interesse para furtos.
O túmulo de José Antônio está entre os mais procurados pelos visitantes do cemitério, que também recebe pessoas interessadas em conhecer as sepulturas de outras personalidades da história de Campo Grande.
O Cemitério Santo Antônio teve três endereços ao longo da história de Campo Grande.
Entre 1872 e 1887, funcionava na região onde hoje está a Praça Ary Coelho. Depois, entre 1888 e 1913, foi transferido para a Avenida Afonso Pena, onde atualmente está localizada a Casa da Indústria.
A partir de 1914, passou a funcionar na Avenida Consolação, endereço mantido até hoje.
A transferência dos sepultamentos para o novo local ocorreu gradualmente e levou cerca de uma década. A mudança acompanhou o crescimento urbano e a necessidade de afastar o cemitério das áreas que começavam a ser ocupadas pela população.
Atualmente, o espaço possui cerca de 15 mil túmulos distribuídos em uma área de aproximadamente quatro hectares. Em média, são realizados dez sepultamentos por mês.
Para o historiador Carlos Alexandre, a ausência de mulheres nos relatos históricos não significa necessariamente que elas não tenham participado dos acontecimentos. O problema está, muitas vezes, na forma como a história foi registrada.
Durante décadas, documentos administrativos, políticos, fundiários e relatos de viagens deram maior destaque aos homens, normalmente apresentados como proprietários, autoridades, chefes de família e responsáveis pelas principais decisões.
As mulheres, por outro lado, apareciam com frequência apenas como esposas, mães ou filhas.
Esse padrão acabou tornando menos visíveis personagens como Maria Carolina de Oliveira.
No caso da formação de Campo Grande, a narrativa tradicional consolidou José Antônio Pereira como fundador, enquanto Maria Carolina passou a ser lembrada principalmente como sua esposa.
Para o pesquisador, essa visão não contempla toda a dimensão da participação feminina na formação da sociedade local.
Maria Carolina fazia parte de uma estrutura familiar que envolvia parentesco, casamento, religião e relações de compadrio. Esses vínculos eram fundamentais para a criação de alianças e para a organização social daquele período.
O compadrio, estabelecido principalmente por meio de batizados e casamentos, aproximava famílias e fortalecia relações de confiança e influência.
Mesmo quando não aparecem diretamente nos documentos, as mulheres participavam dessas redes de sociabilidade e contribuíam para a construção das relações que sustentavam as comunidades.
Por isso, segundo o historiador, Maria Carolina não deve ser vista apenas como a esposa de José Antônio, mas como integrante de uma família que teve participação na formação das relações sociais do povoado.
Outra mulher importante para a história de Campo Grande é Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva.
Nascida escravizada em 1847, ela chegou ao sul de Mato Grosso no final do século XIX e permaneceu na região que posteriormente faria parte de Campo Grande.
Tia Eva atuou como parteira, cozinheira e benzedeira e tornou-se uma importante referência religiosa e comunitária.
Sua trajetória mostra que a participação feminina na construção da cidade não ficou restrita às famílias consideradas pioneiras pelas narrativas tradicionais.
Mulheres negras, pobres e descendentes de pessoas escravizadas também tiveram papel importante na formação da comunidade e na criação de redes de solidariedade.
A história de Maria Carolina e a de Tia Eva revelam caminhos diferentes de atuação feminina.
Enquanto Maria Carolina estava inserida nas relações familiares, de parentesco e compadrio que ajudaram a consolidar a trajetória da família Pereira, Tia Eva construiu sua influência por meio da religiosidade, dos conhecimentos de cura, dos cuidados e das relações comunitárias.
Para o historiador, as duas trajetórias ajudam a compreender que a influência das mulheres nem sempre acontecia em espaços formais de poder.
Muitas vezes, essa participação era construída no cotidiano, por meio da família, da fé, dos cuidados, da transmissão de conhecimentos e da capacidade de criar e fortalecer vínculos.
Resgatar a trajetória de Maria Carolina e de outras mulheres que participaram da formação da cidade significa, portanto, ampliar a própria compreensão sobre a história de Campo Grande.
Mais do que personagens secundárias, essas mulheres fizeram parte das relações familiares, sociais e comunitárias que ajudaram a construir a cidade que hoje completa 127 anos de emancipação político-administrativa.
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