

A sequência de deslocamentos e ligações telefônicas realizadas na madrugada de 24 de setembro colocou o advogado Amilton Ferreira de Almeida no centro de uma investigação sobre possível vazamento de informações da Operação Infiltrados, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), em Mato Grosso do Sul.
O advogado é acusado de obstrução de Justiça por supostamente ter alertado o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa sobre a ação policial. Na ocasião, o agente era um dos alvos dos mandados judiciais e não foi localizado pelas equipes no endereço onde deveria ocorrer a abordagem.
A investigação utiliza registros de deslocamento de veículos, imagens de câmeras de segurança e históricos de chamadas para reconstruir os acontecimentos daquela manhã. Os dados, segundo a acusação, levantam suspeitas sobre a comunicação entre os dois antes e durante o cumprimento das ordens judiciais.
Movimentação começou antes do amanhecer
Os registros indicam que a caminhonete Toyota Hilux utilizada por Amilton circulou por diferentes regiões de Campo Grande a partir das 4h38. Um dos pontos identificados foi o Jardim Veraneio, nas proximidades da sede do Gaeco.
Pouco depois das 5h, o advogado iniciou uma sequência de tentativas de contato com Hoffman. Após uma chamada de áudio não ser atendida, uma videochamada foi estabelecida às 5h01min36s, com duração de pouco mais de um minuto.
O conteúdo da conversa não foi identificado nos registros apresentados. Para os investigadores, entretanto, o horário do contato e os acontecimentos posteriores sustentam a hipótese de que o delegado teria recebido informações antecipadas sobre a operação.
Na mesma faixa de horário, Hoffman também trocou mensagens e realizou chamadas com outro interlocutor cuja identidade não havia sido esclarecida. A investigação busca determinar a finalidade dessas comunicações e se elas tiveram relação com a movimentação policial.
Delegado deixou a residência antes da chegada das equipes
Imagens de segurança registraram Hoffman deixando sua residência por volta das 5h18, aproximadamente 15 minutos após a primeira videochamada com Amilton.
As equipes policiais chegaram às imediações do imóvel pouco depois, mas não encontraram o delegado. O cumprimento dos mandados começou por volta das 5h30.
Durante esse intervalo, novos contatos telefônicos foram registrados entre o policial e o advogado. Às 5h25, Hoffman iniciou uma videochamada para Amilton, com duração de quase dois minutos.
A sequência também inclui outra ligação feita pelo advogado ao delegado às 5h38, além de uma nova chamada entre Hoffman e o terceiro interlocutor.
Por volta das 5h45, Amilton chegou à residência do delegado e se apresentou como defensor. A rapidez do deslocamento chamou a atenção dos investigadores, já que os dois endereços ficam a aproximadamente 11 quilômetros de distância.
Para a acusação, o conjunto de acontecimentos pode indicar que o advogado tinha conhecimento prévio da operação e que a comunicação entre ambos interferiu no cumprimento dos mandados. A conclusão, contudo, depende da análise das provas e da apreciação judicial.
Operação investiga suposto desvio de drogas
A Operação Infiltrados apura um possível esquema envolvendo agentes de segurança pública suspeitos de desviar drogas apreendidas e permitir que os entorpecentes retornassem ao mercado ilegal.
Hoffman, que chefiou a Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), está entre os investigados. A apuração também alcança outras pessoas suspeitas de participação no esquema.
A suspeita de que informações da ofensiva teriam sido antecipadas motivou uma nova etapa da investigação, denominada Operação Obstructio, voltada à apuração de possíveis atos de obstrução.
Além da suposta comunicação antecipada, os investigadores levantaram suspeitas sobre a ausência do celular do delegado quando ele se apresentou à Corregedoria da Polícia Civil, no fim da tarde de 24 de setembro. A acusação considera que o aparelho poderia conter informações relevantes para o caso.
Defesa contesta acusação
A defesa de Amilton afirma que o contato com Hoffman ocorreu no contexto de uma relação profissional já estabelecida. Segundo a advogada Damares Machado, o delegado já havia formalizado a contratação dos serviços jurídicos antes dos acontecimentos investigados.
A defesa também sustenta que os dois tinham o hábito de tomar café e caminhar juntos nas primeiras horas da manhã, argumentando que a saída do delegado antes da chegada dos policiais teria sido uma coincidência.
As advogadas contestam a existência de elementos suficientes para sustentar a acusação e informaram a intenção de solicitar o encerramento da ação penal por falta de provas.
STJ determinou soltura do advogado
Amilton foi preso temporariamente em 29 de setembro, no contexto das investigações sobre o possível vazamento de informações. Posteriormente, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou sua soltura, após acolher argumento da defesa relacionado à ilegalidade da prisão.
A decisão foi proferida pelo ministro Reynaldo Soares da Fonseca. Na sequência, a Justiça determinou a retirada da tornozeleira eletrônica e a devolução da fiança, cujo valor ultrapassava R$ 48 mil.
A soltura não representa, por si só, o reconhecimento de inocência nem o encerramento da investigação. A acusação contra o advogado segue submetida à análise judicial, enquanto a defesa busca o trancamento da ação.
O processo tramita na 2ª Vara Criminal de Campo Grande. A apuração deverá esclarecer se os contatos registrados naquela madrugada tiveram relação direta com o suposto vazamento e se existem provas suficientes para responsabilizar os envolvidos.
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