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Antes da Operação Condor, paraguaios que enfrentavam Stroessner já eram perseguidos em Mato Grosso do Sul

MPF retoma investigação sobre repressão política, prisões ilegais e articulação civil na tomada de terras na região de fronteira

31/08/2026 às 09h15
Por: Leandro Colman
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Antes da Operação Condor, paraguaios que enfrentavam Stroessner já eram perseguidos em Mato Grosso do Sul

Antes da Operação Condor, paraguaios que enfrentavam Stroessner já eram perseguidos em Mato Grosso do Sul

MPF retoma investigação sobre repressão política, prisões ilegais e articulação civil na tomada de terras na região de fronteira

Mais de seis décadas após o golpe militar que instaurou uma ditadura de 21 anos no Brasil, o Ministério Público Federal (MPF) retomou a investigação sobre a repressão política em Mato Grosso do Sul e ampliou o foco sobre perseguições, prisões ilegais e outras violações de direitos humanos ocorridas quando a região ainda fazia parte do antigo Mato Grosso.

Despacho assinado pela procuradora da República Samara Dalloul, no dia 25, determinou a conclusão da fase de instrução para o ajuizamento de uma Ação Civil Pública de responsabilização. Novas diligências realizadas em arquivos de inteligência militar e policial contribuíram para ampliar o conjunto de informações analisadas pelo MPF.

A documentação reunida também permite compreender a repressão política na região para além das fronteiras brasileiras. Um dos episódios investigados envolve paraguaios que se estabeleceram em território brasileiro e organizaram ações de resistência contra a ditadura de Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai por 35 anos e morreu em 2006, após viver exilado em Brasília.

Entre os perseguidos estavam Ricardo Apolinário Granda, proprietário do antigo restaurante O Gato que Ri, e Luiz Mariano Samúdio, barbeiro que também mantinha negócios na região central de Campo Grande. Eles e outros integrantes do movimento foram presos, processados e posteriormente condenados pelo Superior Tribunal Militar.

A decisão judicial registra a existência de uma articulação política e militar organizada para combater o regime paraguaio, evidenciando que a repressão política já apresentava características transnacionais antes mesmo da criação formal da Operação Condor.

Resistência na fronteira

O movimento de oposição a Stroessner mantinha vínculos com grupos inspirados pela Revolução Cubana. Alguns de seus integrantes chegaram a receber treinamento em Cuba, dentro da estratégia de expansão revolucionária defendida pelo governo de Fidel Castro e por Che Guevara para outros países da América Latina.

A intenção era preparar militantes para retornar ao Paraguai e participar da luta contra a ditadura. A movimentação, porém, também alcançou a região de fronteira e municípios do antigo Mato Grosso.

Diante desse cenário, o regime militar brasileiro passou a monitorar e combater a articulação. A atuação dos órgãos de segurança buscava impedir que os grupos conseguissem estruturar uma operação de maior escala contra o governo paraguaio.

Os novos documentos analisados pelo MPF ajudam a reconstruir esse período e apontam para uma rede de vigilância que envolvia órgãos de segurança e inteligência brasileiros, além de conexões com acontecimentos políticos dos países vizinhos.

A investigação também busca aprofundar a apuração sobre a participação de agentes públicos e setores civis em episódios de repressão e na articulação relacionada à tomada de terras na faixa de fronteira.

O material recuperado em arquivos militares e policiais pode contribuir para esclarecer responsabilidades e dar visibilidade a violações de direitos humanos que ocorreram décadas atrás, mas cujos efeitos permanecem na memória de famílias e comunidades da região.

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