

Antes da Operação Condor, paraguaios que enfrentavam Stroessner já eram perseguidos em Mato Grosso do Sul
MPF retoma investigação sobre repressão política, prisões ilegais e articulação civil na tomada de terras na região de fronteira
Mais de seis décadas após o golpe militar que instaurou uma ditadura de 21 anos no Brasil, o Ministério Público Federal (MPF) retomou a investigação sobre a repressão política em Mato Grosso do Sul e ampliou o foco sobre perseguições, prisões ilegais e outras violações de direitos humanos ocorridas quando a região ainda fazia parte do antigo Mato Grosso.
Despacho assinado pela procuradora da República Samara Dalloul, no dia 25, determinou a conclusão da fase de instrução para o ajuizamento de uma Ação Civil Pública de responsabilização. Novas diligências realizadas em arquivos de inteligência militar e policial contribuíram para ampliar o conjunto de informações analisadas pelo MPF.
A documentação reunida também permite compreender a repressão política na região para além das fronteiras brasileiras. Um dos episódios investigados envolve paraguaios que se estabeleceram em território brasileiro e organizaram ações de resistência contra a ditadura de Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai por 35 anos e morreu em 2006, após viver exilado em Brasília.
Entre os perseguidos estavam Ricardo Apolinário Granda, proprietário do antigo restaurante O Gato que Ri, e Luiz Mariano Samúdio, barbeiro que também mantinha negócios na região central de Campo Grande. Eles e outros integrantes do movimento foram presos, processados e posteriormente condenados pelo Superior Tribunal Militar.
A decisão judicial registra a existência de uma articulação política e militar organizada para combater o regime paraguaio, evidenciando que a repressão política já apresentava características transnacionais antes mesmo da criação formal da Operação Condor.
Resistência na fronteira
O movimento de oposição a Stroessner mantinha vínculos com grupos inspirados pela Revolução Cubana. Alguns de seus integrantes chegaram a receber treinamento em Cuba, dentro da estratégia de expansão revolucionária defendida pelo governo de Fidel Castro e por Che Guevara para outros países da América Latina.
A intenção era preparar militantes para retornar ao Paraguai e participar da luta contra a ditadura. A movimentação, porém, também alcançou a região de fronteira e municípios do antigo Mato Grosso.
Diante desse cenário, o regime militar brasileiro passou a monitorar e combater a articulação. A atuação dos órgãos de segurança buscava impedir que os grupos conseguissem estruturar uma operação de maior escala contra o governo paraguaio.
Os novos documentos analisados pelo MPF ajudam a reconstruir esse período e apontam para uma rede de vigilância que envolvia órgãos de segurança e inteligência brasileiros, além de conexões com acontecimentos políticos dos países vizinhos.
A investigação também busca aprofundar a apuração sobre a participação de agentes públicos e setores civis em episódios de repressão e na articulação relacionada à tomada de terras na faixa de fronteira.
O material recuperado em arquivos militares e policiais pode contribuir para esclarecer responsabilidades e dar visibilidade a violações de direitos humanos que ocorreram décadas atrás, mas cujos efeitos permanecem na memória de famílias e comunidades da região.
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