
Antes de 1911, Campo Grande ainda não contava com estrutura própria de Justiça. Não havia juiz, promotor ou delegado, e qualquer processo iniciado na região precisava ser encaminhado ao município de Miranda. Na época, a segurança local estava sob responsabilidade do subdelegado Joaquim Vieira de Almeida, descrito em registros históricos como atuante e dedicado. O primeiro juiz da cidade foi Arlindo de Andrade Gomes, e o primeiro promotor, Tobias de Santana.
É nesse cenário que se insere um dos casos mais antigos e brutais de violência contra a mulher registrados na região. Em 21 de setembro de 1889, Adriano Ferreira da Silva assassinou a esposa, Francisca Borges da Conceição, desferindo doze facadas.
O inquérito foi iniciado no dia seguinte ao crime. Sem hospital na cidade, o exame de corpo de delito foi realizado na residência de um particular. Seis dias depois, o subdelegado enviou toda a documentação — escrita à mão, já que não havia máquina de datilografia — ao promotor, após ouvir quatro testemunhas.
O andamento inicial do caso indicava uma possível responsabilização do autor. O promotor deu seguimento imediato à denúncia, no mesmo dia em que recebeu os autos, encaminhando o processo ao juiz.
No entanto, o desfecho foi outro. Coincidentemente, a denúncia chegou ao Judiciário na mesma data da Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889. A partir daí, o processo ficou paralisado no juízo de Miranda e nunca foi concluído.
Sem julgamento, Adriano seguiu em liberdade. O caso acabou se perdendo no tempo, tornando-se um retrato da fragilidade institucional da época e da impunidade em crimes de violência contra a mulher — realidade que, à época, muitas vezes ainda recaía injustamente sobre as próprias vítimas.
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