Polícia OPERAÇÃO INFILTRADOS
Gaeco pede expulsão de policiais e indenização de R$ 10 milhões por desvio de drogas em MS
Denúncia contra 23 pessoas aponta suposto esquema de desvio de entorpecentes apreendidos para revenda ao tráfico. Ministério Público também solicita confisco de dinheiro, veículos e imóvel ligado a delegado investigado.
20/10/2026 09h02
Por: Leandro Colman

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) pediu à Justiça a perda dos cargos públicos de policiais civis, de um policial penal e o pagamento de R$ 10 milhões por danos morais coletivos em uma investigação sobre o suposto desvio de drogas apreendidas em operações policiais.

Os pedidos constam da denúncia apresentada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) contra 23 pessoas. Segundo a acusação, os envolvidos integrariam uma organização criminosa que utilizava a estrutura policial para retirar entorpecentes da destinação oficial, negociar as cargas no mercado ilegal e distribuir os lucros entre os participantes.

Além das condenações, o Ministério Público solicita o confisco de dinheiro apreendido durante as buscas e de bens supostamente adquiridos com recursos ilícitos. Entre os patrimônios mencionados está um imóvel no condomínio Alphaville 1, em Campo Grande.

O pedido de perda dos cargos abrange o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, policiais civis denunciados e o policial penal Vitor Ribeiro Venâncio dos Santos. As medidas dependem de decisão judicial.

Investigação aponta desvio de entorpecentes

Conforme a denúncia, o esquema funcionava por meio de uma divisão de tarefas entre agentes públicos e pessoas ligadas ao tráfico de drogas. Um dos principais articuladores apontados pelo Gaeco é Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”, que seria responsável por negociar os entorpecentes desviados.

A acusação sustenta que Lucas repassava informações aos policiais sobre carregamentos de drogas e indicava possíveis alvos para abordagens. Após as apreensões, parte ou a totalidade dos entorpecentes seria retirada do fluxo oficial e entregue ao grupo para revenda.

Em contrapartida, os agentes envolvidos receberiam parte dos valores obtidos com a comercialização ilegal, segundo a investigação.

Conversas citadas na denúncia

O documento apresenta diálogos que, na avaliação do Ministério Público, indicariam a dinâmica das negociações entre integrantes do grupo.

Em um dos episódios, ocorrido em dezembro de 2022, Edimilson Santos Pereira teria informado ao irmão, Itamar dos Santos Pereira, que policiais conseguiriam fornecer drogas à organização. Posteriormente, Lucas teria cobrado o pagamento de uma quantidade de cocaína supostamente desviada.

Ainda conforme a denúncia, Edimilson sugeriu entregar duas motocicletas para quitar a dívida. Lucas, porém, teria recusado a proposta e afirmado que precisava acertar os valores com os policiais responsáveis pelo fornecimento dos entorpecentes.

Para o Gaeco, o diálogo reforçaria a suspeita de uma relação comercial entre integrantes do tráfico e agentes públicos envolvidos no esquema.

Delegado é apontado como integrante do grupo

O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, que ocupava a titularidade da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), é apontado pela acusação como um dos principais integrantes da organização criminosa.

Segundo o Ministério Público, ele teria utilizado a posição funcional para favorecer as atividades investigadas. A denúncia também indica que as negociações teriam continuado mesmo após mudanças de lotação de alguns policiais.

Os denunciados são acusados, conforme a participação atribuída a cada um, de crimes como organização criminosa, tráfico de drogas, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e violação de sigilo funcional.

MPMS pede R$ 10 milhões por danos coletivos

O valor de R$ 10 milhões solicitado pelo Gaeco corresponde à indenização por danos morais coletivos e à reparação dos prejuízos atribuídos às infrações investigadas.

O Ministério Público argumenta que o suposto uso da estrutura policial para favorecer o tráfico representa uma violação dos deveres funcionais e da confiança depositada pela sociedade nas instituições de segurança pública.

A denúncia foi protocolada em 9 de outubro de 2026 e integra as investigações da Operação Infiltrados. Os pedidos ainda serão analisados pela Justiça, e os denunciados têm direito à ampla defesa e à presunção de inocência.