Polícia FRAUDE NO DETRAN-MS
Justiça torna réus ex-servidores e despachantes por esquema de dados falsos
Decisão da 1ª Vara Criminal de Campo Grande acolheu denúncia do MPMS sobre inclusão irregular de eixos e retirada indevida de restrições veiculares.
09/09/2026 01h01
Por: Leandro Colman

A 1ª Vara Criminal de Campo Grande aceitou a denúncia apresentada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) contra cinco investigados por inserção de dados falsos no sistema de informações do Detran-MS. A decisão judicial apontou a presença de indícios de autoria e materialidade com base em levantamentos da Corregedoria do órgão, dando início formal à ação penal.

Entre os réus estão três ex-servidores — Abner Aguiar Fabre, Bedson Rodrigues Machado e Genis Garcia Barbosa — e dois despachantes — David Cloky Hoffmam Chita e Leandro César de Matos Sória. O Ministério Público pede a condenação do grupo pelos crimes de associação criminosa, falsidade ideológica e inserção de dados falsos em sistema de informações.

A acusação aponta que o grupo alterava o banco de dados para incluir, de forma ilegal, um quarto eixo inexistente em 49 veículos, sem que estes passassem por vistoria técnica.

Investigação começou após ligação de advogado

As irregularidades começaram a vir à tona após um boletim de ocorrência registrado por um servidor do órgão. Na época respondendo pela Direção de Veículos (DIRVE), o funcionário recebeu a ligação de um advogado agradecendo pela remoção de uma restrição veicular. Como o pedido oficial ainda estava sem andamento, a comunicação causou estranheza e motivou uma apuração interna.

A checagem revelou 29 liberações irregulares em um curto período. Do total, 27 procedimentos foram realizados a partir do login do próprio denunciante em um dia em que ele não estava presencialmente no setor — sendo 26 baixas efetuadas em um intervalo de apenas uma hora.

A apuração identificou que o computador estava sendo utilizado por outra servidora. O denunciante explicou ter inserido suas credenciais no terminal para auxiliá-la a verificar pendências de uma conhecida. Posteriormente, a polícia constatou que 25 baixas haviam sido operadas pelo despachante David Hoffamam Chita e uma por outro investigado. O vínculo com os despachantes ficou evicenciada pelo fato de os documentos dos veículos terem sido baixados no dia anterior às liberações.

Cobrança e ameaça de R$ 10 mil

O inquérito também detalha extorsões contra proprietários de veículos beneficiados pelas baixas indevidas. Um dos donos relatou ter recebido a ligação de um intermediário de São Paulo, identificado como Charles, cobrando R$ 10 mil para regularizar o bem.

Após acionar um advogado para protocolar o pedido formal no Detran-MS, a restrição foi retirada do sistema. No dia seguinte, porém, o proprietário voltou a receber ligações cobrando o valor e ameaçando reinserir a restrição caso o pagamento não fosse efetuado. Nas gravações, o interlocutor afirmava que precisava do dinheiro para "pagar os caras".

A análise pericial confrontou o áudio das ligações e identificou indícios de que a voz pertencia ao despachante David Chita. Para a polícia, as provas demonstram a atuação do investigado no cancelamento indevido de restrições, na cobrança dos valores e no repasse de quantias a outros integrantes do esquema.