“Plano Tarrafa” revela perseguição e prisões planejadas durante a ditadura em MS
Documentos secretos recém-revelados pelo Ministério Público Federal expõem um plano de repressão elaborado durante a Ditadura Militar para identificar, monitorar e prender opositores políticos na região sul do então Mato Grosso. O material, batizado de “Plano Tarrafa”, foi localizado nos arquivos do regime e passou a integrar uma investigação conduzida pelo MPF desde 2016.
Diante do conjunto de provas reunidas, o órgão decidiu abandonar a tentativa de mediação e partir para uma Ação Civil Pública de Responsabilização, buscando reparação financeira para vítimas de violações de direitos humanos.
Segundo o MPF, o plano foi elaborado pelo Comando da 9ª Região Militar em parceria com a DOPS e a Polícia Federal. A estratégia previa a prisão preventiva e o confinamento de pessoas consideradas “subversivas” ou ligadas ao comunismo em quartéis.
O documento lista 63 alvos diretos na região que posteriormente formaria Mato Grosso do Sul. Em Campo Grande, então com menos de 80 mil habitantes, havia 21 nomes. Outros alvos estavam distribuídos por municípios como Corumbá, Ponta Porã, Dourados, Aquidauana, Três Lagoas e Porto Murtinho.
Entre os classificados como de maior prioridade estavam figuras conhecidas da política, medicina, imprensa e meio acadêmico, como os irmãos Alberto, René e Humberto Neder, o médico William Maksoud, o comerciante Ricardo Apolinário Granda, o então vice-prefeito de Campo Grande Nelson Trad e o empresário Pedro Chaves dos Santos Filho.
O professor e engenheiro civil Francisco Fausto Mato Grosso Pereira também aparece entre os principais alvos. Segundo os registros, ele era monitorado por sua atuação estudantil, críticas à universidade e articulação política. Jornalistas e profissionais de rádio também foram incluídos no sistema de vigilância.
As fichas reunidas pelas forças de repressão continham endereços, histórico político, informações sobre familiares, correspondências interceptadas e acusações de supostas atividades subversivas. O plano previa que parte dos presos fosse levada para unidades militares, entre elas o 10º Grupo de Artilharia de Campanha, em Campo Grande, e o 9º Batalhão de Engenharia de Combate, em Aquidauana.
Repressão além das prisões
A investigação do MPF também reuniu documentos sobre outras estruturas utilizadas durante a repressão política em Mato Grosso do Sul.
Entre os episódios investigados estão a atuação da Associação Democrática Mato-grossense (Ademat), apontada como uma organização paramilitar de extrema-direita; denúncias de uso do antigo complexo ferroviário da NOB, em Campo Grande, como local clandestino de tortura; e relatórios produzidos pelo Serviço Nacional de Informações.
Também há registros sobre supostas torturas em embarcações militares no Rio Paraguai, incluindo o navio-prisão Guarapuava, posteriormente chamado Paraguassu, além de ações de repressão contra trabalhadores rurais e conflitos fundiários.
No meio acadêmico, documentos apontam perseguições a professores e estudantes de instituições como a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e a então FUCMT, atualmente Universidade Católica Dom Bosco.
MPF vai à Justiça
No despacho que determinou o avanço para a esfera judicial, a procuradora Samara Dalloul classificou a documentação como prova de um “planejamento estatal prévio, centralizado e sistemático” para a detenção ilegal de civis.
Após anos de investigação, o MPF considera o conjunto probatório “robusto e definitivo” e entende que uma mediação não seria suficiente para proteger os direitos das vítimas.
A investigação começou em 2011 e ganhou forma de inquérito civil em 2016. Após períodos de paralisação durante a pandemia, o trabalho foi retomado nos últimos anos, com novas oitivas e acesso a documentos do Arquivo Nacional.
Em agosto de 2026, a íntegra do “Plano Tarrafa” foi recuperada durante a análise do acervo. O documento se tornou uma das principais bases para a decisão de buscar judicialmente a responsabilização da União e de eventuais responsáveis.
O MPF informou que não comenta investigações em andamento, mas confirmou que o inquérito é público e reúne, em sua maioria, documentos disponíveis no Arquivo Nacional. Os próximos encaminhamentos e conclusões deverão ser apresentados à Justiça Federal.